Houve vezes que em dias de chuva me sentava no degrau das escadas da entrada de minha casa para poder chorar sem que ninguém notasse as lágrimas que me escorriam pela face. E quando alguém passava eu acenava e lançava um sorriso gigante como toda a gente estava habituada a ver e ninguém notava que não estava tudo com os pontos nos is... ou quase toda a gente.
Havia alguém... um único alguém que em dias de chuva, quando me via lá sentada, parava, olhava fixamente e sentava-se no passeio ficando assim a observar todos os meus movimentos atentamente como se nada mais existisse à sua volta. Normalmente nesses dias, parecia que já vinha a contar com qualquer coisa, então trazia uma gabardina que o protegia. Ficava a olhar, cuidadosamente e sinceramente nunca me fez sentir mal. E foi sempre assim, todos os dias em que uma chuva imensa caía, ele ficava ali até que, numa noite fria, em vez de se sentar literalmente à minha frente, tomou a iniciativa de se vir sentar ao meu lado e muito delicadamente perguntou:
- Posso?!
Eu sorri - penso que logo aí, tirando as outras vezes todas em que nos encontrámos entre olhares escondidos, houve uma certa química - e tomou aquilo como um "sim". Sentou-se e como de costume ficou a olhar-me com os olhos mais ternurentos que eu alguma vez vira. Era um rapaz bem bonito, arranjado e com uma face de bebé tremendamente amorosa, não pude de deixar de ficar a olhar também...
A chuva parou e as minhas lágrimas continuavam a cair, ao notar isso ele pergunta mais uma vez de forma delicada:
- O que se passa? Porque é que em todos os dias de chuva te vejo aqui tão sozinha a chorar?!
Fiquei espantada com a pergunta dele e indignada a pensar como saberia ele que chorava todos os dias... E respondi:
- Eu não choro. A chuva enxuga-me a cara!
- Não me mintas. Podes contar-me... - responde-me ele com o ar mais sincero.
Nem assim ele tirara os olhos de mim e ainda foi capaz de me dizer:
- És demasiado brilhante para perderes o brilho com lágrimas salgadas...
Eu voltei a sorrir e um silêncio apaixonante fez-me abraçá-lo.
Após despedir-me dele, subi as escadas a correr em direcção ao meu quarto onde liguei uma música suave, deitei-me na cama a sorrir como se fosse o Cristo Rei e fiquei a olhar para o tecto do meu quarto que por coincidência está preenchido de estrelas pequeninas... Não tirei o tal rapaz um minuto da minha cabeça. Passei a noite em branco a tentar aperceber-me que meteorito reluzente seria aquele que aparecera na minha vida...! Não encontrava qualquer explicação, não imaginava o porquê de nada, mas sorria e isso era o que mais me interessava naquele momento, pois o meu sorriso fora tirado por alguém noutros tempos.
Passaram-se dias, semanas e não chovia, a chegada da Primavera estava a voltar a aborrecer-me, a deixar-me melancólica, pois se não havia chuva o rapaz não passava à minha porta mesmo que eu chorasse baba e ranho, me esperneasse ou berrasse para que ele viesse! Não acontecia nada. Ouvia os pássaros a cantar, as pessoas a pedir ainda mais calor e eu, trancada no quarto, olhando pela janela a pedir que a chuva viesse para com ela trazer o meu sorriso de volta. E nem assim, depois de tanto rezar, de tanto pedir às estrelas e ás nuvens para trazer a chuva, ela chegava... nem uma gota, nem uma nuvem mais acinzentada, nem uma ameaça de mau tempo se avistava. Nada! Os meus dias estavam a voltar e eu só pedia a presença dele...
Habituara-me a vê-lo todos os dias, pois este Outono não houve um dia que não chovesse e só o facto de o ver a passar e a sentar-me a dez metros de mim, fazia o meu dia valer a pena; era incapaz de não ir um dia que fosse para as escadas só para observar tal beleza pura. Não havia nada de errado nele. Tinha os lábios bem desenhados, uns olhos rasgados da cor do mel, umas pestanas grandes que faziam sobressair o seu olhar cintilante, rosto moreno e redondo, cabelo encaracolado e castanho-claro, estatura média e de boa aparência. Não sei que me fascinara naquele rapaz, mas a verdade é que tudo nele batia certo, até a voz, não era grossa, nem rouca; não era fina nem normal, diria que era perfeita!
Em meados de Junho, houve uma enorme tempestade junto à Costa. O mar encheu e uma onda de grande altitude inundou umas casas por ali perto... Vim então a saber dias mais tarde que ele se tinha mudado para a outra parte da cidade. Descobri finalmente o seu nome e o seu paradeiro... ou quase! Chamava-se Salvador. Realmente, de Salvador tinha ele tudo! Salvou-me tantos dias que nem sei como lhe agradecer...
Depois de os ânimos acalmarem, decidi perguntar à minha mãe se podia ir dar uma volta e foi então que juntei o útil ao agradável e me ocorreu à cabeça ir visitar uns primos que moravam igualmente no outro lado da cidade. E assim foi.
Como cheguei tarde, não deu para sequer dar uma volta, fui deitar-me a pensar em como iria ser o meu dia de amanhã.
O sol chegou, entrou-me pelos estores e com ele saltei da cama e fui em direcção à cozinha. Comi cereais muito apressadamente porque certamente que iria ter um dia bastante atordoado.
Procurei em todo o lado, não havia nenhum rapaz igual a ele, até que me lembrei de perguntar num café de um Sr. que sabia do paradeiro de quase toda a gente.
- Boa tarde! Desculpe, mas não sabe de umas pessoas que vieram morar para aqui devido à grande tempestade que ocorreu na outra parte da cidade?
- Boa tarde, menina. Sim, corre por aí que habitaram umas casas ali para cima. Umas vivendas acolhedoras, pequenas.
- Obrigada! - agradeci e sai a correr com o maior sorriso.
Voltei a correr e a procurar por tudo o que era sitio até que por fim, vejo um vulto de camisola verde a sair de uma casinha que parecia de bonecas e a minha reacção logo de imediato foi gritar o nome do Salvador! Ele olhou para trás e veio a correr abraçar-me...
- Não te consegui ver, desculpa. Não parei de pensar em ti, a tua imagem não sai da minha cabeça! Como estás?! Não consegui avisar-te que iria mudar de casa, não consegui nada... Peço-te imensas desculpas! Mas já agora, como se chama a minha princesa?! - Enquanto ele falava os meus olhos brilhavam e os meus lábios repetiam tudo o que ele dizia, voltei a abraçá-lo e depois respondi:
- Maria. O meu nome é Maria!
- Como me descobriste?! Não sei de ti há um mês e meio.
- Soube da tempestade e tentei saber o teu nome e por mero acaso vim a saber que tinhas vindo para a outra ponta da cidade e tive que vir procurar-te!
(...)
Houve conversa para a noite toda, finalmente encontrara o meu príncipe dos olhos da cor do mel e não poderia estar mais feliz!
Durante todo o Verão não fomos capazes de nos largar um único segundo. Acabei por passar férias com os meus primos até que a minha mãe descobriu o porquê de querer ficar lá. E deu-me a mais feliz notícia da minha vida, iríamos mudar-nos em breve para uma casinha ao pé da dele!
Ficámos bons amigos durante muitos anos...
E hoje, ainda penso nele desde que acordo até que adormeço e se há coisa que não esqueço são as palavras que me disse quando nos separámos no Liceu:
«Sempre que olhares para uma estrela e ela brilhar mais do que o normal, fecha os olhos com força e imagina-me ao teu lado, sou eu que estou a pensar em ti e a olhar para mesma estrela que tu.»
1 comentário:
perfeito
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